Comments:
Sábado
:: por Lukah :: 10:41 PM ::
Comments:
A marcha pela vida
A primeira impressão que nos causa a história trazida por Luc Jacquet, de um distante e gélido universo branco, é a de uma sofrida corrida contra o tempo na busca da eternidade através das novas gerações. Essas criaturas tão persistentes e terrivelmente humanas em muitos momentos, fazem com que nossa percepção aproxime a existência racional dos mais puros instintos afetivos de nossa comum natureza animal. Afinal, nos reconhecemos nesta luta pela vida demonstrada por esses corajosos pingüins. Algo ressoa nas profundezas de nosso íntimo. Faz acordar o espírito de nossos mais remotos ancestrais. Lembrando-nos de nossa anciã história existencial neste planeta. Numa difícil jornada ao longo de milhares de anos de sobrevivência. Esta história feita de contradições e erros de percurso. De muitas perdas para que houvessem alguns ganhos.
O homem encontra-se senhor em nosso planeta, embora tenha comprometido em muito a continüidade de sua própria existência em resultado à séculos e mais séculos de exploração dos recursos naturais e degradação do meio ambiente. Não só pôs em risco a sua espécie como extingüiu inúmeras outras. Tal comportamento revela um misterioso sentido, um contraditório objetivo; incompreensível à natureza. Somos a única forma de vida que com suas ações dirige-se a um suicídio em massa. Enquanto a maioria dos seres faz o possível, e o impossível, para garantir a vida não apenas à si próprio como também às futuras gerações, nossas preocupações não vão muito além ao imediatismo de nossas necessidades pessoais e urgências materiais. Norteados por valores individualistas esquecemos de pensar no bem comum: nosso planeta. Perdemo-nos do sentimento de perteça a uma só comunidade, a global. Esquecemos que formamos uma só família com a natureza e todas as suas formas de vida. As cenas da união dos pinguins para enfrentarem a nevasca, e desta forma protegerem seus filhotes, deixa bem claro o que anda faltando ao homens. Parece mesmo que acabamos perdendo o rumo durante a longa marcha de nossa existência. A mensagem deixada pelo filme na verdade não pode ser expressa apenas em palavras, mas sim em um novo olhar sobre nós mesmos, ao perceber o quanto nós seres tão racionais, ainda temos muito a aprender com os animais.

:: por Lukah :: 2:28 AM ::
Comments:
Segunda-feira
Evanescente
Feito água a lavar
desmancha a lua
evapora pela noite
ressurge estrelado
imerso em sonhos
castelos de vento
caminhos no ar
levitando...
na essência do pensar.
:: por Lukah :: 2:43 AM ::
Comments:
O espelho
Talvez do outro lado alguém me ouça, me pressinta, me intua. Talvez até sonhe comigo, achando que era consigo mesmo que sonhava. E ao ouvir minha voz ignore não ser a mesma sua. Eu sei que ele está lá, já o vi através do espelho, aquele jeito de olhar que achava reconhecer-se em mim, mas eu sabia que não era eu mesmo. Não reconhecia aqueles olhos intrigados com a presença do seu próprio reflexo. Então ali naquele instante descobri haver outro de mim, depois se perdeu, não mais o encontrei, não mais se revelou. Acredito que nossas vidas não tenham se cruzado novamente e ele tenha seguido caminhos inversos aos que escolhi. Às vezes tenho a sensação de escutá-lo rindo, chorando, berrando, gozando. Então acredito que ele também possa me perceber de alguma forma. Talvez ele nem seja o único.
Assusta-me pensar que existam mais deles. Alguns já podem ter morrido, outros mudaram partes da minha vida, mudaram de emprego, de namorada, mataram pessoas, viajaram pelo mundo, fizeram alguma descoberta científica, foram para a lua. Me divirto só de ficar imaginando tantas possibilidades. Todos com a minha mesma idade, menos os que já se foram. Todos com o meu rosto, alguns com diferentes cores e cortes de cabelo, outros com cicatrizes, brincos, cabelos longos ou brancos prematuros. Outros deficientes, cegos, surdos, mudos ou loucos.
Desta forma sempre que me olho no espelho busco algo através de meus olhos, tento ver se num relance de segundo não percebo avistar alguém que não seja eu próprio. Já o vi uma vez, sei que é só questão de tempo até vê-lo novamente.
:: por Lukah :: 2:41 AM ::
Comments:
O conhecimento é como uma teia que de fio à fio vai dando forma a algo novo. Um conhecimento que abrange tudo e todos, que está em tudo e em todos. Um conhecimento que transcende o próprio conceito de conhecer. Que faz parte de tudo que pensamos, sentimos e criamos. Que interliga tudo que há até mesmo aquilo que desconhecemos ou ignoramos saber. Durante o processo de tecer colocamos muito de nossa própria matéria, concretizando tudo que vamos colhendo ao longo de nossas vidas. Exteriorizando um pouco da essência do qual nós somos feitos, compartilhando-a com o mundo. De certa forma é como uma troca, retornando ao mundo tudo que dele retiramos acrescido de um pouco de cada um. Nessa mágica tessitura co-criamos com o Universo e também seguimos a construção de quem somos. Construindo novos caminhos a percorrer, labirintos de vida para nos envolver, linhas de esperança rumo ao nosso futuro. Nesta teia do qual fazemos parte e seguimos a engrandecê-la fazem parte também nossos sonhos, nossos ancestrais e nossos filhos, assim como os filhos de nossos filhos e todas as futuras gerações, cuidar da teia é cuidar de nós mesmos e daqueles que mais amamos. Amar esta teia é amar a nós próprios e ao nosso planeta.
:: por Lukah :: 2:39 AM ::
Comments:
Domingo
A roca
Fiando o que somos
nesta roca mágica da vida,
que nos dá forma,
nos transforma.
Nos move desde o início,
nos leva adiante.
Em seus meandros
nos perdemos,
nos achamos.
Gira a roda da fortuna,
nos faz conhecer todos cantos
todas pontas de nosso ser.
Dar a volta inteira em nós mesmos
e ainda assim ficar sem de fato
nos conhecer.
Pois sempre há o novo,
sempre há um longo fio a tecer.
:: por Lukah :: 4:02 AM ::
Comments:
A árvore de Sebastião
Sebastião acordou naquela manhã em um dia tão igual a qualquer outro. Levantou-se, tomou seu banho e foi aguar as plantas no jardim da frente: - De onde surgiu esta árvore?- perguntou-se. Lá estava ela: enorme, de proporções gigantescas, opulentamente verde. Quase escondia sua casa do restante da rua, seu tronco mal dava lugar para se passar para a calçada. Esmagou-se junto ao muro para poder sair. Tudo bem que o terreno da sua casa não fosse grande coisa, mas o jardim que ele cuidava com tanto zelo havia dado lugar a uma imensa árvore da noite para o dia, ocupando tudo o que antes era um pé de tomate e um canteiro de alecrim, arruda, manjericão e outras ervas. Ali, recentemente, ele havia plantado uma muda vinda do norte que seu vizinho caminhoneiro trouxera de uma de suas viagens. Tinha dito tratar-se de uma erva rara cujo chá curava de tudo.
A vizinhança aos poucos foi ficando em alvoroço, sem entender a origem de tal aparição. -Será que Sebastião plantou isso?- perguntava alguém. -Mas de que jeito ele trouxe? Não ouvi função de carreta.- retrucava outro. E assim o mistério ia se espalhando. Sebastião não sabia se ficava orgulhoso ou envergonhado, todos vinham ver a dita árvore. Os antigos palpitavam: -Acho que é um Baobá-, -Não, é Jequitibá, eu conheço-, -Tá parecendo um umbu-. A verdade é que ninguém nunca havia visto nada igual ou mais bonito. Suas folhas graúdas lembravam estrelas, algumas flores surgiam parecendo girassóis. Todos concordavam em se tratar da coisa mais linda e harmoniosa já vista. Devia mesmo ser uma benção ou um milagre. Caravanas religiosas começaram a vir para louvar a grande árvore; a televisão da cidade cobria o acontecimento; estudiosos locais pesquisavam suas propriedades e concluíam que talvez fosse a última de uma espécie em extinção, senão a única. Sebastião apenas ficava a observar toda a movimentação em torno dela, à noite quando não havia mais ninguém por perto ele sentava-se próximo a ela deixando-se imergir no perfume alavandado que exalava após o anoitecer. Pela madrugada antes mesmo do amanhecer ele já estava junto dela observando as multicores com que suas folhas resplandeciam ao raiar do sol. O tempo foi passando e aos poucos ninguém mais dava atenção para a árvore, que de misteriosa não tinha mais nada, tornara-se apenas mais uma árvore.
A primeira a reclamar foi a vizinha da direita que dizia que ela fazia muita sujeira com tantas folhas e flores caídas pelo chão que se espalhavam pela rua com o vento. Sebastião achava que assim formavam um tapete colorido e perfumado, mas não houve maneira de convencer a velha senhora. O vizinho da esquerda não tardou a tomar partido dizendo que seus galhos altos encobriam sua casa do sol e vivia às sombras por causa dela. A árvore foi então se tornando um problema. Sebastião havia apegado-se muito a ela, que com sua poesia colorida feito pintura de algum artista passava uma energia de vida e de paz do qual ele nunca havia desfrutado. Mas não houve solução para as crescentes reclamações de todos, ninguém mais parecia dar valor ao que ela representava. Sendo assim, com pesar, Sebastião mandou cortá-la. Sete dias foram necessários para terminar o serviço. Com muita dor Sebastião observou os operários indo embora com a caçamba cheia dos restos de sua amiga. Até a raiz mais profunda tinha sido arrancada para não correr o risco de que ela voltasse a nascer. No dia seguinte Sebastião acordou-se e como de costume foi cuidar de seu jardim, no lugar da árvore restou um imenso vazio e um grandioso buraco no chão. Bem que ele tentou, mas foi em vão, no seu quintal nenhuma planta mais vingou.
:: por Lukah :: 3:11 AM ::
Comments:
Quarta-feira
Uma chance à paz?
Todos os argumentos possíveis estão sendo usados nesta acirrada disputa por votos que o referendo vem causando. O mais inusitado é ver que a questão não se trata apenas de dizer sim ou não à proibição da venda de armas, na verdade o foco da discussão transcendeu para discursos a favor da liberdade, da paz, da esperança, dos direitos dos cidadãos e uma série de outros valores, nem sempre evocados com as melhores intenções. Um ponto positivo se destaca logo de cara: a sociedade está participando efetivamente, está debatendo, está envolvida neste tema que toca a todos e nos obriga a encarar uma face gangrenada da sociedade: a violência. Como em muitos anos não se via, gente de todo tipo de classe social tem suas opiniões a respeito da segurança pública, ou melhor, da falta dela.
Entram em pauta questões que vão muito além do direito à compra e posse de armas de fogo. Discussões acaloradas, e com muita hostilidade em certas ocasiões, demonstram e dão ótimos exemplos de que não estamos de fato preparados para essa sonhada ¿cultura de paz¿. O ser humano ainda revela estar bem longe da realidade da não-violência, filosofia tão defendida por um pequeno homem de pele moura que com apenas um punhado de sal enfrentou o império britânico e lutou pela independência da Índia. Mesmo assim este homem conhecido por Gandhi viveu e morreu incomodando muita gente. Gente, que como testemunhamos muitas décadas depois, parece achar ameaçadora a idéia de confiar no ser humano, de resolver os problemas sociais sem uma verdadeira guerra civil. Gente que tem medo de dar uma chance à paz, como dizia o ex-Beatle cantando contra a guerra do Vietnã, mas aí já entramos em outra história. O curioso entre estes dois homens, cujas idéias pacifistas repercutem até hoje, é que ambos foram assassinados, vítimas de armas de fogo. Mais curioso ainda, para muitos, é o fato de que eles não foram mortos por armas empunhadas por criminosos, mas sim por pessoas comuns, que achavam que empunhando uma arma resolveriam seus problemas.
Referendo- 2005
:: por Lukah :: 9:07 PM ::